O veredicto dos críticos (O Corpo da Mentira, A Fronteira do Amanhecer, À Deriva e Menino da Mamã)

Está de volta a rubrica “o veredicto dos críticos” que tem como base a opinião de cronistas da imprensa nacional em relação às estreias cinematográficas da semana. A recolha é de excertos de críticos do Público, Diário de Notícias e Time Out.

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“Ora é um tecno-thriller à imagem do Inimigo Público do mano Tony, ora uma meditação melancólica que tem algo de Le Carré no modo como pinta a espionagem com cores soturnas, ora um objecto que levanta questões políticas prementes relativas ao que é demasiado entendido como ‘imperialismo americano’ (sobretudo na cena do almoço entre Leonardo di Caprio, Golshifteh Farahani e Lubna Azabal e na presença de Russell Crowe como o untuoso superior hierárquico de Di Caprio, com um sotaque do Sul dos EUA a sublinhar o seu alinhamento com uma administração ‘de resultados’). Pelo meio disto tudo, O Corpo da Mentira nunca consegue criar uma personalidade própria; é um híbrido funcional mas anónimo, que Scott filma com o seu habitual cuidado mas ao qual não consegue imprimir a urgência que a história exige (o mundo real não é, definitivamente, o habitat natural do realizador inglês). Mas é apreciável ver um filme que, por uma vez, não toma os espectadores por estúpidos nem lhes dá o herói linear que o marketing dá a entender.” – Jorge Mourinha, Público

“Para quem aprecia hambúrgueres, O Corpo da Mentira não deixa ninguém com fome. OK, não é Hollywood vintage, nem o melhor que Scott ou DiCaprio já fizeram na vida (no caso de Russell Crowe, é menos assim, porque ele é excelente no papel de chefe da CIA barrigudo, provando que os pneus na barriga e os cabelos brancos – confirmar em O Informador, de MichaelMann – fazem muito bem às suas capacidades interpretativas), mas é eficiente quanto baste e ninguém fica a olhar para o relógio enquanto os árabes vão sendo despachados. Isto é cinema de acção, mas com sensibilidade política.” – João Miguel Tavares, Time Out

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“Na origem de A Fronteira do Amanhecer, de Philippe Garrel, está uma narrativa sobrenatural do escritor Théophile Gautier, Spirite. O filme pode ser encarado como uma espartana e cinzenta (foi rodado a preto e branco) história de amor foi prolongada além-túmulo, que comunga do fantástico poético e algo datado de um Jean Cocteau, e da imagética do surrealismo. Mas na verdade, A Fronteira do Amanhecer não passa de um insuportável e anacrónico exemplar do pior cinema intéllo e poseur francês, todo ele pretensionismos, e tiradas risíveis, rodado por Garrel com um olho posto no umbigo, e o outro nos anos 60.” – Sérgio Abranches, Time Out

“Sucede que Garrel faz cinema ‘antigo’, e há muito que não fazia um filme tão “antigo” como A Fronteira do Amanhecer. Tão antigo que até integra convenções do mudo – aquela maneira de terminar as sequências com a íris a fechar-se, já não há ninguém (literalmente ninguém) que ainda se lembre de fazer aquilo; trucagens rudimentares, uma mulherfantasma que aparece e desaparece pelo efeito combinado de um simples jogo de luz e de um vidro espelhado; o romantismo doentio, o tom e a ‘psicologia’ ao estilo de um poeta ‘fin de siècle’; o onirismo à Cocteau (Orfeu) transposto para um contexto (lugares e personagens) marcadamente contemporâneo. Nada disto é, de facto, o gosto do dia.” – Luís Miguel Oliveira, Público

“Em termos muito simples poderemos dizer que estamos perante uma das mais belas estreias dos últimos meses, com a chancela de um autor, Philippe Garrel, que se tem mantido intransigentemente fiel ao seu cinema de perturbada e poética intimidade. Com assinatura do genial William Lubtschansky as imagens das histórias de Garrel trazem-nos a respiração insólita de um cinema primitivo, serenamente fora de moda, colado às manifestações mais radicais da alma humana.” – João Lopes, Diário de Notícias

tabela3“É uma simpática surpresa vinda da área da produção independente dos EUA. O resultado é um retrato de Nova Iorque , em meados da década de 1990, em que a utopia mais radical se cruza com o puro desencanto existencial. As interpretações são muito sóbrias, mesmo a do excêntrico psiquiatra , composto pelo veterano Ben Kingsley.” – João Lopes, Diário de Notícias

“Esta fita que traz todas as marcas do actual cinema pseudoindependente americano mas evita de justeza as suas principais armadilhas. É verdade que não há assim tanta substância como isso nesta história de um adolescente a aprender a ser adulto e de um adulto que descobre que talvez nunca o tenha sido realmente; a ilusão que há vem dos vapores herbais que pontuam todo o filme, da fotografia acinzentadamente húmida de Petra Korner, do ambiente fluido em que tudo decorre. Mas depois percebe-se que Levine está mais interessado em recriar um ambiente emocional do que numa estrutura narrativa causa-efeito. Afinal, não é habitual que os momentos-chave da passagem à idade adulta (que, é certo, são seguidos à risca na construção da história) sigam rigorosamente uma estrutura dramatúrgica tradicional. Mesmo isso não seria suficiente se não fossem os actores principais: Josh Peck, a fazer lembrar o Alan Ruck do imortal Rei dos Gazeteiros de John Hughes, e sobretudo o veterano Ben Kingsley, hilariante como psiquiatra frique em busca do sentido da vida. É a segunda grande performance que este ano vemos ao shakespeareano actor inglês depois de Elegy de Isabel Coixet (que ainda está por estrear entre nós), e o seu rapport com Peck torna À Deriva em fita à qual vale a pena deitar uma olhadela.” – Jorge Mourinha, Time Out

“Mais uma comédia de costumes a atirar para o romântico e o dramático com bom fundo, mais um ritual de passagem da adolescência para a vida real, mais um filme simpático, que não acrescenta nem adianta. Quer dizer, até adianta, pois há décadas que Ben Kingsley não se dava ao trabalho de mostrar como sabe representar. Tirando a parte das drogas, seu comércio e consumo, que fornece animação ao entrecho e algum anedotário, principalmente aos iniciados, a história é bastante vulgar, com o seu par romântico renitente e as dúvidas existenciais do costume explicitadas no confronto entre o rapaz, seu psiquiatra e a afilhada deste.A realização de Levine, porém, como se costuma dizer, não desenvolve. E uma boa ideia perde-se num filme dirigido com a displicência a transpirar lugares-comuns que nem uma interpretação inspirada salva.” – Rui Monteiro, Time Out

“O Menino da Mamã não só chega com um ano de atraso às nossas salas, como estreia depois de Filhos e Enteados, filme mais recente, tornando uma comparação inevitável. Ambos são sobre meninos da mamã e este que agora estreia é algo inferior. Menos disparatado e incisivo a marcar o ridículo de adultos ainda viverem sobre a alçada dos pais e estarem completamente dependentes disso. Demora a gozar com a situação, a explorar as gargalhadas óbvias – são necessárias num filme assim – e isso implica que só bem depois do início comecemos a simpatizar com as personagens. Sem grandes novidades, O Menino da Mamã só tem o seu humor para oferecer. Tem momentos óptimos na segunda metade do filme. É só pena que se tenha de esperar tanto para chegar a eles.” – André Santos, Time Out

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Por estrear… “O Corpo da Mentira”, “Menino da Mamã”, “Wackness – À Deriva” e “A Fronteira do Amanhecer” (20/11/2008)

Uma resposta a O veredicto dos críticos (O Corpo da Mentira, A Fronteira do Amanhecer, À Deriva e Menino da Mamã)

  1. Às vezes questionam tanto as classificações aqui deste espaço. Podemos ver pelas críticas de A Fronteira do Amanhecer, cujas classificações estão tão díspares… Ora tudo depende do gosto…

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