O Corpo da Mentira , por Gonçalo Trindade

o-corpo-da-mentira

Título Original: Body of Lies

de: Ridley Scott

escrito por: William Monahan (baseado no romance de David Ignatius)

com: Russell Crowe, Leonardo DiCaprio, Golshifteh Farahani, Oscar Isaac, Simon McBurney, Ali Suliman, Alon Abutbul, Vince Colosimo e Mark Strong

Menos explosões e mais conversa do que seria de esperar. No bom sentido. Não assim tão bom, mas…

Ridley Scott é um realizador interessante. É um realizador esquizofrénico. Ou seja, se por um lado já fez coisas como Blade Runner, por outro lado também já fez coisas como O Reino dos Céus (um filme não tão mau quanto se diz por aí… mas ainda assim, mau). Ora bem, este seu mais recente filme não tem a qualidade de um Blade Runner, mas também não tem a falta dela de um Reino dos Céus. E ainda bem.

Russell Crowe em "O Corpo da Mentira" (2009)

Russell Crowe em "O Corpo da Mentira" (2009)

O Corpo da Mentira, thriller tendo como base todo o clima gerado pela guerra do Iraque, cuja acção decorre no Médio Oriente, com Leonardo DiCaprio (como o moralmente correcto agente em acção Roger Ferris), e simultaneamente por várias vezes no centro de operações nos Estados Unidos, com Russell Crowe como Ed Hoffman (o patrão gordo, que não gosta dos filhos, e de moral duvidosa), é uma boa sugestão no actual panorama de estreias, um thriller que não se banaliza nem se transforma num simples filme de acção para apelar às massas. Não se pense que a história é terrivelmente complicada. Há um vilão (um tal de Al-Saleem que pouco tempo de antena tem, e acaba por ser apenas uma simples representação do “vilão” necessário a qualquer filme… está lá para mover a história, nada mais), terrorista, claro, e dois agentes (como já ali disse acima, DiCaprio e Crowe), que o querem apanhar. Pelo meio há uns atentados em países europeus (reinvidicados por esse Al-Saleem), um interesse amoroso para DiCaprio (previsível, não?), e uns tiroteios que às vezes parecem ter sido filmados por um Paul Greengrass versão light (atenção: isto não é uma crítica).

Leonardo DiCaprio em "O Corpo da Mentira" (2009)

Leonardo DiCaprio em "O Corpo da Mentira" (2009)

A história em si é francamente simples, e o filme nunca se complica demasiado. O grande trunfo do filme acaba, provavelmente, por estar nas suas personagens. No poster do filme, apenas duas figuras aparecem: DiCaprio e Crowe. E, de facto, é nas costas de ambos que o filme assenta. A química, a cumplicidade existente entre os dois actores e as suas personagens torna o filme uma verdadeira delícia de se ver. A moral de ambos coloca-os frequentemente em choque (Crowe não se rala e faz o que é preciso, DiCaprio é um rapaz mais bem comportado que só quer fazer o bem), e é nesse choque que em muito assenta a moral do filme, que acaba também por servir como crítica aos que se mantêm em segurança num gabinete, criticando e dando ordens, ao contrário dos que, de facto, se encontram no campo de batalha fazendo o que é preciso.

Leonardo DiCaprio em "O Corpo da Mentira" (2009)

Leonardo DiCaprio em "O Corpo da Mentira" (2009)

O ritmo é praticamente perfeito, não fosse o argumento escrito por William Monahan (adaptando o livro de David Ignatius), também escriba do excelente The Departed – Entre Inimigos (pelo qual ganhou o bem merecido Óscar para Melhor Argumento Adaptado), e os momentos parados existem, mas são poucos. O ambiente, revelador de um Médio Oriente dominado por tudo menos um conceito de justiça, está particularmente bem feito. O filme não foi, obviamente, filmado verdadeiramente nos locais onde decorre (foi filmado em Marrocos… quem se atreveria a filmar no Iraque e afins?), mas a recriação do ambiente está perfeito, e a interacção entre as personagens (e, até certo grau, o próprio espectador) e esse mesmo ambiente, quer seja pelos pedintes ou pelas crianças que vendem flores na rua, está particularmente bem feito. O Corpo da Mentira acaba, pois, por ser uma pequena janela ao que se passa lá por fora, naquela tão mediática guerra.

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Leonardo DiCaprio e Golshifteh Farahani em "O Corpo da Mentira" (2009)

O filme acaba, infelizmente, por não se atrever a ir mais longe. Não se banaliza, não se torna num simples thriller de acção para as massas… mas ainda assim, não está assim tão longe. O argumento é simples, e vai frequentemente em várias direcções, sem sabendo bem qual delas seguir (há ali um vilão que mal aparece, uma guerra do qual não se vê muito, um interesse amoroso da personagem do DiCaprio numa árabe que serve mesmo para agradar aos adolescentes românticos, e momentos que parecem saídos de um típico filme de acção… num filme que simultaneamente parece não querer ser (e realmente, no seu todo, não é) um típico filme de acção). É um thriller, sim, mas não um particularmente bem construído ou inteligente. Scott tem talvez um ou outro momento de maior inspiração (atenção para um rápido flashback perto do final, moralmente poderoso), mas o seu estilo continua tão rápido e seco como seria de esperar.

Leonardo DiCaprio e Mark Strong em "O Corpo da Mentira" (2009)

Leonardo DiCaprio e Mark Strong em "O Corpo da Mentira" (2009)

Felizmente, tal estilo resulta na sua maioria bastante bem. A sua atenção às personagens é de louvar, a história está toda ela bem estruturada e bem contada e, como já disse, o ambiente está particularmente bem recriado. Fica a faltar, talvez, uma maior identidade para um filme que por vezes é verdadeiramente esquizofrénico (como o seu realizador, portanto…), e uma maior coragem por parte do seu realizador para levar as personagens ainda mais longe (nota para a presença em ecrã de Mark Strong, que já antes tínhamos visto em Stardust, Syriana, entre outros, e que aqui faz o belo papel de um poderoso árabe chefe do Departamento de Informação Geral da Jordânia, aliado de DiCaprio. Tem uma presença realmente bastante boa, e é uma pena que não apareça mais no ecrã). E, quem sabe, para se atrever a mostrar um pouco mais do que exactamente se passa lá fora (ainda que, sejamos honestos, filmes sobre o Iraque é coisa que não falta…).

Leonardo Di Caprio e Russell Crowe em "O Corpo da Mentira" (2009)

Leonardo Di Caprio e Russell Crowe em "O Corpo da Mentira" (2009)

Mas apesar das suas falhas, O Corpo da Mentira é realmente um bom thriller, uma bela proposta de entretenimento no panorama actual de estreias, que tem o valor de não se banalizar nem se tornar em simples chamariz para as massas. Bastante bom para quem não quer desligar totalmente os neurónios ao entrar numa sala de cinema.

Ainda assim, é pena… poderia ter ido mais longe.

Classificação:

(3 estrelas e meia)

4 respostas a O Corpo da Mentira , por Gonçalo Trindade

  1. Helena diz:

    Gostei da crítica.
    Simples, bem estruturada,vê-se que estava dentro do assunto.
    Um aparte ,repete 4 vezes a palavra thriller (atenção: isto não é uma crítica).

  2. Parabéns pela crítica, Gonçalo.

  3. Gonçalo Trindade diz:

    Obrigado a ambos. Uso frequentemente a o termo thriller porque é, de facto, o género a que este filme pertence. O ritmo, a estrutura, o desenvolvimento das personagens… é um thriller, sem dúvida. Ao ver no entanto a publicidade que tem sido feita ao filme, pode-se esperar algo mais simples, com mais balas, explosões, e um DiCaprio ali para atrair as adolescentes. Mas nada disso corresponde ao produto final… este é, de facto, um thriller (e cá estou eu novamente a repetir a palavra), e não um filme de acção (no seu todo, já que realmente há ali uma altura ou outra,..). Não é um filme que se banaliza nem se deixa assentar em enormes cenas de simples espectáculo visual. O espectador pode ser levado a esperar algo que não corresponde à realidade. Este é, de facto, um bom filme… se quisermos menos explosões, mais conversa, e os neurónios ligados enquanto o filme decorre.

  4. Ana Gomes diz:

    Mesmo não sendo um filme com a capacidade de nos deslumbrar, achei um filme competente que consegue captar a atenção de início ao filme e, com duas interpretações bastante convincentes
    Parabéns pela review!

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