O veredicto dos críticos (Ensaio sobre a Cegueira, Reviver o Passado em Brideshead e A Dupla Face da Lei)

Iniciamos hoje a publicação semanal de uma rubrica que terá como base a opinião de cronistas da imprensa nacional em relação às estreias cinematográficas da semana. Para começar recolhemos excertos de críticos do Público, Diário de Notícias e Time Out.

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“Fernando Meireles nunca encontra soluções consistentes para lidar com a riqueza do texto de Saramago. Razões para isso? Uma central, a meu ver: o filme vai-se ‘adaptando’ a um cliché do cinema de ficção científica, pelo caminho alienando todo o labor de peculiar introspecção moral para que o romance nos convoca. Ensaio sobre a Cegueira não será exactamente um desastre. Por um lado, somos confrontados com um sugestivo tratamento visual dos espaços e das cores a que, como é óbvio, não é estranha a competência do directo de fotografia César Charlone; por outro lado, deparamos com um elenco de gente de muitos e variados talentos, com inevitável destaque para a sempre subtil Julianne Moore. Ainda assim, o filme deixa a sensação de ser uma experiência redutora face ao filme.” – João Lopes, Diário de Notícias

“Numa entrevista que concedeu, a propósito da estreia portuguesa de Ensaio sobre a Cegueira, Fernando Meirelles fala das duas reacções opostas que tem visto no público: há quem goste muito e fique emocionalmente afectado, há quem não se consiga envolver e reaja friamente. Por muito que nos apetecesse colocar-nos no primeiro campo – e haveria muitas razões para isso, desde o envolvimento da divina Julianne Moore às expectativas devidas à inteligência de que o realizador brasileiro fez prova na sua adaptação do Fiel Jardineiro de John Le Carré – a verdade é que Ensaio sobre a Cegueira nos deixa no segundo. Reconhecendo a fidelidade narrativa e espiritual ao romance de José Saramago, mas incapazes de nos relacionarmos com ele para lá de uma admiração distanciada. Manda a verdade que se diga: o que Meirelles e o argumentista Don McKellar fizeram da prosa de Saramago é trabalho sério, bem pensado e melhor executado (sobretudo ao nível da desorientação e perda de âncoras criadas pelo extraordinário trabalho de ambientação, enquadramento e fotografia). Mas isso não faz de Ensaio sobre a Cegueira um grande filme.” – Jorge Mourinha, Público

“A partir do momento em que o cinema é obrigado a mostrar aquilo que um livro apenas tem de descrever, a adaptação cinematográfica de uma obra como Ensaio sobre a Cegueira passa a ser um trabalho ciclópico. Se juntarmos a isso a necessidade de condensar, em duas horas de filme, 300 páginas de uma alegoria tão violenta quanto a que Saramago inventou, a tarefa torna-se praticamente impossível. É certo que há muito que se falava do potencial cinematográfico de Ensaio sobre a Cegueira. Visto o filme, não se percebe porquê.Tanto mais que nem sequer está aqui em causa a competência de Fernando Meirelles, sem dúvida um realizador talentoso e de vastos recursos, como o provou em Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro. Ele faz o que pode com o material que tem nas mãos, só que os romances alegóricos de Saramago não são conhecidos pela sua subtileza, e o cinema não se esconde atrás de metáforas. Daí que Ensaio sobre a Cegueira, o filme, tenha o sabor das abordagens primárias de temas apocalípticos, como um pregador que garante aos seus discípulos que o mundo está para acabar em 30 dias. Meirelles faz o que pode com a história que tem nas mãos, e não há como negar-lhe virtuosismo enquanto realizador e criador de imagens. O elenco também se entrega de corpo e alma à tarefa, o que implica arrastarem-se como bichos numa jaula. Mas a não ser que se tenha muito prazer em chafurdar no horror e na miséria, não se percebe o que alguém possa tirar de um filme como este.” – João Miguel Tavares, Time Out

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“Em 1981, foi feita em Inglaterra, uma soberba adaptação televisiva do livro autobiográfico de Evelyn Waugh Reviver o Passado em Brideshead. Quase 30 anos depois, alguém se lembrou que talvez fosse boa ideia fazer uma versão para cinema da série tirada do livro, e daí saiu um filme totalmente irrelevante e redundante. Para que serve um filme como Reviver o Passado em Brideshead? Apenas para quem nunca viu a série de televisão pensar que é a primeira vez que o livro de Waugh é posto em imagens; e para quem gosta do selo “qualidade de produção britânica” e se contenta com ele, ficar encantado com a recriação de época, com o guarda-roupa, com a linda fotografia e com todas as qualidades técnicas a que as produções deste tipo nos habituaram. Porque de resto, Reviver o Passado em Brideshead só serve para perguntarmos: ‘Mas porquê? Porquê?” – Sérgio Abranches, Time Out

“Já existia uma excelente série televisiva e, portanto, este filme começa por revelar-se desnecessário, com a agravante de não conter uma só ideia interessante de cinema. Depois, as personagens centrais estão entregues a actores anódinos e sem carisma, contrastando, de novo, com a insuperável distribuição da série: sobretudo o complexo Sebastian, para sempre ligado à imagem perturbante de Anthony Andrews, perde-se numa apagada e vil tristeza. Apenas se salva a mãe de Emma Thompson e, apesar de todo o cabotinismo, o pai de Michael Gambon. Para quem tiver vilipendiado as adaptações literárias de James Ivory recomenda-se o visionamento deste pastelão para destrinçar “academismo” de incompetência.” – Mário Jorge Torres, Público

tabela_semana_3“Pergunta: como é que se têm no mesmo filme Pacino e De Niro, os dois maiores actores americanos da sua geração, pela primeira vez contracenando todo um filme um com o outro (no Padrinho parte II de Coppola nunca se cruzavam, no Heat de Mann só tinham uma cena juntos) e se deita fora esse trunfo de luxo num objecto descartável? Resposta: quando o realizador é Jon Avnet, antigo produtor reconvertido em realizador esquecível com Mulheres do Sul e Íntimo e Pessoal. A sua falta de jeito desbarata os talentos de De Niro e Pacino e deixa por explorar as pistas mais interessantes de um guião mal acabado mas estimulante assinado por Russell Gewirtz. Avnet consegue a proeza de ignorar as potencialidades para as reduzir a um sensacionalismo superficial paredes-meias com uma apologia do vigilantismo, polvilhado de conversa de balneário que soa mais forçada do que natural, para além de ser incapaz de sacar das suas estrelas algo mais que o piloto automático. Sidney Lumet tinha feito disto um mimo, Jon Avnet faz uma fita boa para o DVD de domingo à tarde.” – Jorge Mourinha, Público

“No espaço de um ano, o realizador Jon Avnet conseguiu fazer passar a ideia de que a carreira de Al Pacino anda pelas ruas da amargura. Não por culpa do actor, Pacino é Pacino, mas 88 Minutos e este A Dupla Face da Lei são coisas que não se deviam fazer a lendas vivas, principalmente quando se pensava que não podia bater mais fundo depois de S1m0ne. O pior é que aqui a heresia é dupla, e junta-o a Robert De Niro, numa daquelas combinações sempre aguardadas e que julgamos que nunca podem falhar. Drama policial onde são reunidos inúmeros clichés do género. A Dupla Face da Lei tem um tom fatalista, pesadão, que não corresponde muito à forma como a narrativa flui e se resolve. É triste ver Pacino e De Niro rodeados de tanta mediocridade, sem nenhum rasgo de talento de quem teve a coragem de os reunir no grande ecrã.” – André Santos, Time Out

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Por Estrear… A Dupla Face da Lei, Ensaio sobre a Cegueira (13-11-2008)

7 respostas a O veredicto dos críticos (Ensaio sobre a Cegueira, Reviver o Passado em Brideshead e A Dupla Face da Lei)

  1. Eu fico espantado com a opinião dos críticos no geral sobre Ensaio sobre a Cegueira.

  2. Nunca concordei com as criticas que leio nos jornais… curiosamente sempre ouvi dizer que grande parte destes jornalistas sao realizadores frustrados. Acho mal que se de espaco, em jornais conceituados, a pessoas que representam gostos de 5% populacao… se tanto. Prefiro muito mais ler criticos internacionais, que sao extremamente mais sensatos.

    Com isto em mente, os blogues, como este, sao fantasticos novos espacos para dar voz as pessoas que melhor representam a populacao, principalmente a jovem. O Hotvnews e um excelente exemplo disso.

  3. Richard Mata diz:

    Vi o Dupla Face da Lei e devo dizer que na minha opinião é mais do mesmo em relação a estes dois actores é raro eles interpretarem papeis diferentes dos habituais, papeis em que eles tenham que desenvolver uma personagem, parece que aquilo é mesmo a faceta desses dois actores, não sou fã deles, ja vi a maioria dos filmes dos dois e nunca fiquei muito entusiasmado a vê-los a representar, a não ser na saga do Padrinho e no filme que o Pacino fez de cego que para mim é um dos melhores papeis que eles interpretou. De resto …Acho-os Overrated! Este filme cabia muito bem na secção dos B Movie

  4. Pedro Maciel diz:

    Um crítico não tem que representar 5, 10 ou 90% dos gostos da população. Que ideia mais ridícula. Um crítico exprime sempre uma opinião pessoal. Críticos somos todos nós. Basta ver um filme para podermos emitir uma opinião sobre o mesmo. Não concordar com uma crítica é perfeitamente normal.

  5. Eduardo Castro Fonseca diz:

    Entao tens que me explicar exactamente qual a funcao de um critico!
    Para mim um critico e alguem que por alguma razao tem a capacidade de avaliar filmes para que possa fazer recomendacoes a populacao em geral… e se e esse o caso para que serve um critico que vai literalmente contra os gostos de toda a gente?

    Vamos ser razoaveis… aquela cena de e bom porque e diferente e ridicula.

    Como disse no primeiro comentario, por diversas vezes usei as opinioes de criticos americanos para escolher seleccionar certos filmes e sai a ganhar por diversas vezes ao evitar ver filmes mais fracos. Nao percebo porque o mesmo nao acontece em Portugal.

  6. Richard Mata diz:

    Isso dos críticos tem muito que se lhe diga, eu pessoalmente prefiro ver e apreciar antes de comentar seja o que for. Há um caso que se passou há pouco tempo (não tem nada a ver com cinema, mas com “Críticos”) em que um anuário de restaurantes e vinhos mundialmente reconhecido foi vitima (bem feito) de um escândalo que mostra realmente o que são críticos as vezes hoje em dia. O caso foi o seguinte, um Chef reconhecido mundialmente pôs a prova esse anuário, criando um “site fantasma” de um restaurante com menu e fotos etc, mandou um email para esse anuário pedindo-lhe para ser inserido, até aí tudo bem, foi-lhe pedido uma verba, ele aceitou, o menu e a carta de vinhos do “site do restaurante fantasma” foi criada com criticas más desse anuário, vinhos que tiveram notas negativas e até criticas a “gozar” o mesmo com os pratos e saiu no ano seguinte com notas positivas, acima da média. O que vem a provar que se calhar 75% das criticas em tudo neste mundo são feitas conforme o preço que se paga ou os proveitos que se poderá vir a ter.

    Por isso ainda bem existe blogs, wordpress, sites e tudo mais que fazem isto pelo prazer de transmitir as suas ideias, opiniões e criticas baseadas realmente no seu ponto de vista, mesmo que se goste ou não.

    Umas das coisas que me atraí em termos de escolher um filme, é o seu realizador e historia, quase nunca os actores envolvidos e nunca, mas nunca mesmo os críticos de cinema portugueses.

  7. Adorava saber quais são os critérios de avaliação desses críticos. Oh, well!

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