Ensaio sobre a Cegueira, por Tiago Ramos

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Título original: Blindness
De: Fernando Meirelles
Escrito por: José Saramago e Don McKellar
Com: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Don McKellar, Danny Glover e Gael García Bernal

E se de repente todas as pessoas começassem a cegar?

De José Saramago pouco há a dizer, conheço alguns dos seus romances e a obra em questão, Ensaio sobre a Cegueira foi, curiosamente, das últimas que li. Em relação à adaptação da obra para o cinema, tenho a dizer que perante uma tarefa que se supunha impossível, Fernando Meirelles acabou por fazer jus ao romance, pelo menos até àquilo que é humanamente possível.

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De facto, o que imediatamente salta à vista quando começamos a ver o filme é a realização. Não consigo imaginar outro nome senão o de Fernando Meirelles para este trabalho. Do seu currículo imediatamente saltam à vista dois trabalhos: Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro; mas é sobretudo com este Blindness que revelou mais a fundo o seu estilo de filmagem. Durante todo o filme, acabamos por nos sentir cegos e sufocados, tal e qual, como Saramago conseguiu que o seu espectador se sentisse durante a leitura do romance. Fernando Meirelles usa e abusa do experimentalismo, das cenas desfocadas e descoloradas, sempre com uma aura esbranquiçada, sempre com ligeiras ondulações e cenas tremidas. Afinal que melhor maneira de levar o espectador a sentir um filme em que todos os personagens são cegos? Não havia outra forma de transmitir o sentimento de uma obra que, por si só, já é megalómana e o possível temor de Fernando Meirelles não o deixou cair no facilitismo, para que o filme se tornasse mais comercial.

E é aqui que não compreendo as críticas que se levantaram em todo o mundo contra este filme. Serão os portugueses suspeitos, por ser a adaptação cinematográfica de uma obra de um dos nossos melhores escritores e o único, até agora, que nos trouxe o Nobel da Literatura? Ou isto tem a ver com a sensibilidade? É verdade que Ensaio sobre a Cegueira não é um filme fácil e precisa de contar com a disposição do espectador ou, caso contrário, não vale a pena, mas acima de tudo é um filme inteligente. E aí é que entra a crítica geral. Com o aparecimento massivo de blockbusters comerciais, o espectador geral acaba por se acomodar à leitura básica e superficial dos argumentos e isso não é o que Saramago, Meirelles e Don McKellar pretendiam.

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Tal como o romance, o filme aborda a temática de uma cegueira colectiva, de uma forma metafórica, conseguindo ao mesmo tempo traduzir os sentimentos das personagens de uma forma muito nua e cruel. As cenas e os cenários conseguem ser tão cruéis e reais que chegam até a ser agonizantes. A meu ver, o trabalho de fotografia do filme é merecedor de um Óscar. Os cenários são estrondosamente reais e, conseguem contrabalançar o facto de serem abrangentes, mas ao mesmo tempo específicos de uma grande catástrofe. Os ambientes são antagónicos à cegueira: soturnos, negros, decadentes e tristes, enquanto que a cegueira descrita é branca, como se flutuassem em leite, como O Primeiro Cego descreveu.

Fernando Meirelles conseguiu chegar ao âmago do livro. É verdade que existem muitas cenas potencialmente interessantes e comprometedoras que não surgem no argumento do livro e existem talvez algumas emoções por explicar, mas Meirelles conseguiu transmitir o essencial. Tal como pediu Saramago, no filme não existe alusão a um país ou local específico e todo o elenco é de uma grande diversidade de raças, o que acaba por gerar no espectador um temor maior, uma real noção que a epidemia de mal-branco podia ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar. Também as personagens não têm nome tal como no romance: mais uma vez Meirelles não caiu na ideia de tentar tornar o filme comercial. E faz todo o sentido: num mundo de cegos para que servem os nomes?

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Mesmo sem nomes, o elenco do filme parece ter sido escolhido a dedo e acaba por dar nas vistas. Sobretudo a interpretação fantástica de Julianne Moore, como a Mulher do Médico, digna de um Óscar, não fosse este filme visto como experimental, pela crítica mundial. Julianne Moore demonstra mais uma vez que o seu talento não é uma mera obra do acaso e que, mesmo com uma personagem tão difícil, ela não se amedronta. Afinal, a Mulher do Médico, por uma razão absolutamente inexplicável e da qual também não se quer explicação, não cegou e acaba por se tornar uma guia de todo o grupo: física e moral. Julianne Moore vê aquilo que os outros não vêem e encontra-se num dilema: estará abençoada ou amaldiçoada pela visão?

Mark Ruffalo, o Médico, mantém o nível de interpretação a que já nos habituou, mas obviamente que não consegue atingir a grandiosidade de Julianne Moore; ao contrário de Gael García Bernal que consegue, como O Rei da Camarata Três, transmitir todo o sentimento ganancioso da humanidade, tão bem descrito por Saramago no romance. Uma das grandes surpresas a nível de interpretação é a da jovem Alice Braga, tão bonita e espontânea como tinha imaginado a Rapariga dos Óculos Escuros, quando li o livro. A actriz revela neste filme a sua evolução, acabando por tornar a sua personagem mais periférica, como uma das mais interessante do filme. Danny Glover, o Velho da Venda Preta, é, a par de Julianne Moore, aquele que detém uma das mais importantes personagens e por conseguinte, de maior importância. Naquele que parece ser um alter-ego de Saramago, o velho acaba por se tornar num elo entre a clausura e o mundo lá fora, durante o filme (facto que é ainda mais explanado no romance original). Curiosamente, a sua personagem é aquela que antes de ser cego já o era parcialmente; no entanto, é ele que abre os olhos do leitor para a realidade da sociedade humana, levando-nos a questionar tudo o que conhecemos como aceitável; assumindo no filme também o papel de narração nos momentos finais.

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Das cenas mais marcantes do filme e que me emocionou foi sobretudo aquela em que as mulheres percorrem o corredor do manicómio, prestes a serem violadas, reveladores de uma enorme coragem. Também pela subtileza das emoções, é extremamente bonita a cena em que as mulheres carregam a que morreu durante as violações e num bonito gesto de altruísmo a limpam, antes de a enterrarem. Também, a cena do cão das lágrimas (apesar de não tão profunda e emotiva como no livro), acaba por nos conduzir à emoção imediata.

É incrível, como a fotografia do filme e a realização de Meirelles levam o espectador a aperceber-se como , em caso de cegueira colectiva, todas as estruturas sociais que conhecemos actualmente, deixariam de existir e/ou de fazer sentido, como o pânico e o temor se instalariam e como os instintos mais escondidos dos humanos seriam revelados, levando-os a agir quase como animais. Ao mesmo tempo acaba por revelar uma bonita história familiar e de como, sete pessoas, anteriormente desconhecidas, se tornam uma família. Uma nota: o final do filme é tão ou mais bonito do que imaginei quando li o livro.

Todo o filme é repleto de pormenores deliciosos, alguns deles apenas perceptíveis a quem leu o livro e isso acaba por se tornar um bónus para o leitor/espectador, que permite também que o filme não se torne uma desilusão para o mesmo. A banda sonora, a cargo dos brasileiros Uakti, é também digna de um Óscar. Meirelles conseguiu conjugar sons aparentemente desconcertantes e antagónicos do argumento, num belo complemento às cenas mais dramáticas e chocantes e mesmo às mais emotivas. Um rol de sons orgânicos e até primitivos, que se tornam numa das melhores bandas sonoras dos últimos anos, dignas de grandes compositores contemporâneos.

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Repito, Ensaio sobre a Cegueira é sobretudo um filme inteligente e alegórico e, parafraseando Saramago, lamentavelmente a estupidez não escolhe entre cegos e não cegos. É claramente um filme chocante e violento, mas uma violência claramente justificada e diferente daquela gratuita que abunda por Hollywood, logo custa-me perceber as críticas que daquele lado surgem. Blindness é um grande filme, que faz jus ao romance e possuidor de um excelente trabalho de realização de Fernando Meirelles, num argumento que acima de tudo tenta consciencializar. Ensaio sobre a Cegueira trata sobre o egoísmo humano e sobre aqueles que mesmo vendo, não vêem.

Classificação:

5 respostas a Ensaio sobre a Cegueira, por Tiago Ramos

  1. AnaA diz:

    A primeira coisa que me ocorre é: quão cegas são as pessoas da tal associação americana de cegos? Parecendo isto uma redundância, não o é, pois se existem vários tipos de cegueira a deles também é a do espírito. Isso ou só ouviram dizer que o filme tinha cegos que eram bem mauzinhos e nem se deram ao trabalho de ver o filme antes de darem o seu parecer oficial (mas também alguém disse que eram todos más pessoas?)… Enfim.

    Quanto ao filme, fui vê-lo a pensar “Tenho de me aguentar, dizem que é muito forte, mas eu hei-de arranjar maneira…” e no fim acabou por se revelar das melhores surpresas deste ano. Não digo que não é sufocante, que não olhei para o lado por não conseguir ver uma das cenas, que não chorei quando o filme acabou (de alívio, ou fim da pressão que provoca). É um filme intenso que testa a resistência de uma pessoa (pelo menos se estivermos a compreender o filme na sua totalidade).

    Não tinha lido o livro, e embora a pessoa que me acompanhou o tivesse feito e por conseguinte ter percebido muito mais de certos aspectos, após a discussão de certos pontos do filme chegámos à conclusão de que Meirelles realmente deixou lá as pistas todas para uma pessoa se aperceber. Algumas das cenas que não tinham sido explicadas tinham sido, pelo menos, parcialmente compreendidas por mim… O que quer dizer que se uma pessoa estiver atenta consegue realmente perceber toda a essência do filme e a base do romance.

  2. João Barreiros diz:

    AnaA: “…nem se deram ao trabalho de ver o filme antes de darem o seu parecer oficial ”
    Hehe! Realmente nem se deram ao trabalho…
    “Hehe” sem ofensa aos cegos que possam a estar a ler isto, claro. (ahahahahaha!)

    ;D

  3. Cláudio Carneiro diz:

    Não há nada a adicionar, o review e o filme estão muito bons!

  4. […] apenas 42% de críticas positivas no RottenTomatoes, contudo e se quiser algo mais positivo, clique AQUI, para ler uma review de opinião escrita por […]

  5. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida nenhuma. O Fernando Meirelles e toda a sua equipa estão todos de parabéns pelo soberbo resultado final: não era nada fácil adaptar o livro, mas o filme consegue transmitir para o ecrã todo o espírito da obra do Saramago, e isso é a maior vitória que o filme poderia alcançar.

    Excelente trabalho também da Julianne Moore e do Gael García Bernal. E excelente crítica também, Tiago.

    Cumps

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