Saramago e Meirelles na apresentação de Ensaio Sobre a Cegueira [2/3]

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Como prometido, leia as respostas de Fernando Meirelles, Niv Fichman e José Saramago relativamente ao recurso à violência no filme (e no livro) e às críticas que foram tecidas por espectadores e associações americanas.

Como sabem, Ensaio sobre a Cegueira já estreou um pouco por todo o mundo. As reacções têm sido mistas, quer a nível de críticos quer a nível de público. O país onde se concentra o maior número de críticas negativas é também aquele com o principal mercado de cinema do mundo. Falo claro dos EUA.

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Na sua semana de estreia, Blindness (ou Ensaio sobre a Cegueira) não foi além dos 1,9 milhões de dólares, muito aquém da receita que a Miramax planeava receber na estreia, já que haviam sido investidos cinco milhões de dólares na compra dos direitos de exibição do filme nos EUA. As receitas totais do filme nos EUA estão na casa dos três milhões. Fernando Meirelles, José Saramago e Niv Fichman (produtor) justificam o porquê deste mau resultado.

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A opinião foi partilhada pelos três, com cada um deles a acrescentar algo de novo à justificação. Para Saramago, a campanha presidencial e a actual crise económica tornaram a época pouco propicia para a estreia de um filme onde o espectador é confrontado com uma sociedade em ruínas. Fichman referiu que o público americano não estava disponível numa época tão sensível, para assistir ao filme e com ele explorar os seus cantos mais recônditos, ou seja, pensar nas atitudes que teriam naquela situação. Meirelles sublinha que a crise deprimiu os americanos, o que os levou a afastar-se de filmes mais exigentes a nível intelectual como Ensaio sobre a cegueira e a optar por filmes leves como Beverly Hills Chihuahua, que foi líder de bilheteiras no fim de semana em que Ensaio sobre a cegueira estreou nos EUA.

O filme é violento porque tinha de ser” (José Saramago)

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A violência empregada no filme foi apontada por muitos críticos como um dos principais pontos que lhes desagradou no filme. Saramago afirma que o livro (e o filme) é violento por uma questão lógica. A perda da visão de toda a humanidade afecta a estrutura social, provocando o caos e despoletando comportamentos violentos e cruéis para com outrem. O autor não compreende como é que a sociedade americana ficou tão horrorizada com a longa metragem inspirada na sua obra quando assiste com indeferência aos chamados filmes de série B e a imensas séries onde o sangue é usado e esbanjado e onde a violência é extrema. Saramago quis ainda comentar a controvérsia criada por Marc Maurer, presidente da National Federation of the Blind dos EUA (Associação Nacional de Invisuais, tradução livre), que no passado mês de Setembro declarou à Imprensa o seguinte:

“The movie portrays blind people as monsters (…) Blindness doesn’t turn decent people into monsters” (O filme representa os invisuais como monstros (…) A cegueira não transforma pessoas decentes em monstros”).

Indignado pelos comentários de Maurer, o português disse que estes assentam puramente na ignorância de quem não leu ou não compreendeu o livro e toda a simbologia que a cegueira transmite.

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Meirelles foi mais especifico no recurso à violência no seu filme. O realizador compreendia a sensibilidade de algumas cenas e como tal recorreu à sugestão e não à explicitação, cortando ao máximo na violência excessiva. Desta forma, o realizador pensa que conseguiu até um melhor resultado final, já que, a sugestão de violência acaba por ser mais eficaz junto do espectador do a sua explicitação, por forçar a imaginação do espectador a criar uma imagem mental e como tal, a cogitar melhor toda a situação.

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Estritamente por escassez de tempo, esta parte do artigo não será tão extensa como havia sido anuncido ontem e terá uma terceira parte complementar na qual iremos falar dos três pontos em falta : A razão que levou Meirelles a optar por Gael García Bernal para o papel de O Rei da Ala 3; O grau de envolvimento de Saramago no processo criativo do filme; e os workshops que os actores realizaram para se prepararem.

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8 Responses to Saramago e Meirelles na apresentação de Ensaio Sobre a Cegueira [2/3]

  1. Couceiro, devo dar-te os parabéns. Esta parte do artigo está muito bem escrita.

  2. vitoscano diz:

    Pode ser que os oscares se lá chegar ponham as pessoas a ver o filme. Tambem concordo isto está muito bem escrito.

  3. Infelizmente, duvido que Blindness consiga chegar aos Óscares, devido às críticas negativas procedentes dos EUA e de a Academia ser muito conservadora. Ainda hoje saiu uma notícia que dizia que Fernando Meirelles achava que Julliane Moore e César Charlone [director de fotografia] deviam ser nomeados para os Óscares e que a actriz devia até ganhar este galardão…

  4. Para além disso, o facto de ter sido o realizador do próprio filme a dizer isso também deve ajudar a que Blindness não seja nomeado.

  5. Sara diz:

    Sinceramente, até tenho curiosidade em ver o filme, mas tou um pouco de pé atrás porque não sei porque mas não vou com a cara dos actores principais.. Tirando isso, até deve ser um filme bastante interessante.
    Acho engraçado as pessoas dizerem que o filme é violento quando a maior parte dos filmes de hollywood têm a ver com catástrofes que envolvam seres de outro mundo, e onde a terra fica toda destruida 😡

  6. dscosta diz:

    As pessoas, em geral, não conseguem digerir facilmente filmes deste género, a constatação da fragilidade humana assusta deveras e, claro está, numa altura em anda tudo de pantanas, somos forçados, a sangue-frio, a olhar para o mundo que nos rodeia. Assim o conteúdo do filme assume contornos demasiado realistas para os que usam palas a vida toda. O Ensaio sobre a Cegueira mostra, tal em como outros filmes do género, uma catástrofe em que os limites humanos são medidos, esticados, avaliados e levados ao extremo. O que faríamos todos nós perante a cegueira? Física é aquele que retrata directamente o filme… mas e todas as outras formas de cegueira que há?… Dá que pensar.

    Cumprimentos,

    DCosta
    http://www.palavradodia.com

  7. […] desprendimento; insensibilidade; frieza; inconsciência mórbida; apatia. Variações erradas: indiferência, indiferensa, indifirença, indeferença. Posted by dscosta Filed in […]

  8. Julia diz:

    Eu já li o livro há bastante tempo, sou fã do Saramago desde bastante jovem. O livro é uma MARAVILHA, o filme está também muito bom. Espero que façam mais filmes baseados nas obras desde brilhante escritor.
    Entendo que muitas pessoas achem o filme violento…. aprender que a vida não é apenas ver um rambo a “desligar a ficha da bomba” n último segundo e depois beijar a menina pode ser complicado. 🙂
    Quanto aos Óscares, lamento ter que concordar que os filmes que não têm nenhum tipo de interesse são os que ganham sempre (embora, nos últimos tempos até tenham melhorado um bocadito). A escolha dos actores está muito bem feita, a imagem também.
    Parabéns.

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