WALL-E, por Pedro Almeida

An Adventure Beyond The Ordinar-E…

WALL-E, de Andrew Stanton, com Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Sigourney Weaver, ( 2008 )

Creio que já ninguém se surpreende quando se diz que a Pixar não consegue fazer um mau filme. É um recorde invejável aquele que tem conseguido, mais ainda quando falamos de filmes de animação, eternamente rotulados de entretenimento infantil. Se há coisa que a Pixar conseguiu foi elevar a qualidade a um patamar tal, que consegue ombrear com a maioria dos dramas premiáveis que se degladiam anualmente pela maior atenção gerada. E quando se pensa que melhor é impossível, lá nos aparecem preciosidades como este WALL-E.

Creio que de uma vez por todas, devemos excluir o estigma que permeabiliza a maioria do cinema de animação como um objecto para crianças (assim como a banalidade generalizada de achar infantil quem dele gosta). Ao fim de contas, não podemos falar de um género quando o critério é puramente técnico, uma hiper-realidade estilizada não passa de um opção artística de desenvolver uma história. Foi George Lucas (o primeiro pai da Pixar, curiosamente) quem disse que observar a realidade através de metáforas e alegorias permitia uma maior apreensão dos dilemas existentes, porque focava a atenção no essencial, excluíndo tudo aquilo que poderia pesar em nós nas nossas decisões. E no fundo, que é o cinema que não isso mesmo ? A observação da vida através de gestos simbólicos, contendo nas suas esferas milhares de vidas. E talvez não haja expoente maior nessa celebração que a animação.

WALL-E é um projecto arriscado mas de uma inocência gritante. Pretende assumir, na maior parte do seu tempo, uma narrativa assente na linguagem corporal dos seus personagens principais, retornando o cinema a uma certa ingenuidade da época áurea que viu nascer Charlie Chaplin , Buster Keaton e Harold Lloyd. Uma tradição que encontra eco nas tropelias dos irmãos Marx e até em Jacques Tati. Uma linguagem universal. E no entanto, pasmam-me as queixas de que o filme é aborrecido porque tem poucos diálogos. Melhor ainda, pois serve melhor o espectador ao apostar numa linguagem universal.

E se de gestos conseguimos extrair tanta coisa, isso em grande medida se deve à proeza técnica envolvida. É apanágio da grande animação, criar empatia por células pintadas ou pixeis animados mas conseguir humanizar, objectos inanimados (e não confundir isto com o materialismo desenfreado da actualidade que nos faz prestrar maior servidão a objectos de desejo), sem que para isso se tente abusar do antropomorfismo (como é frequente nos filmes onde os personagens sejam animais) é trabalho de mestre. E a Pixar consegue aqui estabelecer um novo patamar. É dificil não sentir emoção quando as estrelas brilham nos visores de WALL-E, não sentir que ali, para lá do mecânico, se conhece vida, encontrando pedaços dela nas pequenas coisas, no “lixo” de uma humanidade em exílio.

Tudo isto embrulhado numa história com diversos níveis de interesse. Como é próprio da boa ficção-cíentifica, carrega uma mensagem de alerta, do iminente apocalipse que a nossa estúpidez parece querer tornar realidade. E talvez pegando um pouco por aí, nessa assumpção que a vida deve ser valorizada, o filme seja no fundo uma celebração dela mesmo. Das pequenas coisas que o dia a dia faz questão de tornar invísiveis e sobretudo, do amor e do desejo de o partilhar. Não deixa de ser curioso que são precisamente duas máquinas que mostram a uma humanidade apática e morbidamente obesa (e eis que aqui o filme demonstra talvez o futuro inevitável que nos espera, com os avanços da tecnologia a facilitarem e substituirem as nossas mais elementares actividades) aquilo que há muito esqueceram. Aquilo que se pensa ser inócuo, vazio consegue dar mais valor ao que de mais simples, e por consequência, mais importante o coração humano deixou adormecer em si. E que torna também a redescoberta tão mais reconfortante.

É esta a magia de WALL-E. Conseguir ser um dos filmes mais simples do mundo mas ao mesmo tempo, ser em si mesmo um mundo de grandes emoções.

Classificação:

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9 Responses to WALL-E, por Pedro Almeida

  1. PR diz:

    É tudo isso e muito mais!
    Um dos melhores do ano 🙂
    http://takea-break.blogspot.com

  2. VB diz:

    o filme está simplesmente LINDO!

    acho k conseguiram muito bem expremir as emoções das máquinas só através de “bips”…

    dou-lhe 10 estrelas =D

    AMEI!

  3. KAK diz:

    Wall-e…. Não há muito para dizer (talvez como no filme…). O filme é lindo. É a magia da Disney no seu estado puro, aliando uma história tão actual e ao mesmo tempo tão futurista a uma lição de moral que nos alerta para os perigos de um planeta sujo e poluído. E a forma como a história nos é contada é qualquer coisa de fenomenal. Não digo mais. Todos deviam ver. É um 5 estrelas sem dúvida nenhuma.

    grande review do Pedro Almeida!

    Parabéns!!

  4. 5? É pouco. 5 Estrelas é muito pouco para este filme.

    E, VB, 10 também é pouco. Wall-E é simplesmente uma obra-prima como já não se via há muito tempo.

    O filme merece, vá lá, todas as estrelas que apareceram na tela do cinema. E ainda mais uma, só porque tem Sigourney Weaver.

  5. […] Wall-E estreou nas salas de cinema, com um bom resultado: 97.588 espectadores, na semana de estreia, foram mais que suficientes para colocar o novo filme da Pixar no primeiro lugar da tabela Top 10. Wall-E é dos filmes que tem recebido mais críticas positivas nos últimos tempos, com uma avaliação de 8,7 em 10, no site IMDB e 97% no site RottenTomatoes. Pode ler uma crítica do filme, por Pedro Almeida, AQUI. […]

  6. John diz:

    concordo que Wall.E é um dos mais fabulosos filmes de sempre. É apaixonante.

    Mas quero chamar a atençao para KAK. Porque tal como ele, muitas pessoas estão a dar o crédito todo à Disney, o que não é verdade. A Disney simplesmente distribui o filme, a Pixar sim, merece todo o reconhecimento por nos trazer filmes magníficos. Através dos seus filmes, percebemos que quem trabalha na Pixar não quer fazer blockbusters (como por vezes a Disney faz) mas sim trabalhar e criar aquilo que mais prazer lhes dá na vida.

    Uns verdadeiros Parabéns a toda a equipa da PIXAR.

  7. Sofia Sá diz:

    Lindo mesmo. A Pixar não desilude. A forma como conseguem sempre captar os movimentos e torná-los reais, sem exagerar é simplesmente brilhante.
    Está simplesmente genial.

    Boa critica. 😉

  8. erika diz:

    este filme é um espetaculo!!

    adorei!!!

    aconselha a toda a gente a ver este filme!!

    é um maximo!!

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