título original: Funny Games U.S.
realizado por Michael Haneke
escrito por Michael Haneke
com: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Devon Gearhart
“You’re not allowed to break the rules”, diz Paul (Michael Pitt) quase no final do filme. Mas, como se diz, as regras são feitas para serem quebradas, e foi isso que ele fez, tal como Michael Haneke.
Quando um homem de família decide passar umas férias com a sua mulher e filho, está longe de imaginar que essas férias serão as suas últimas. Um monstruoso mas genial duo aterroriza todas as famílias que se atrevam a divertir… sem eles.
“The game is simple. Pick a family. Pick a victim.” Era assim que nos era apresentado o filme ao vermos o trailer.
Funny Games (1997)
Este Funny Games, remake do filme homónimo de 1997 do mesmo realizador, não é o clássico filme de terror a que estamos habituados, onde em cada canto existe sempre algo que nos faz saltar das cadeiras, como um qualquer Saw ou Hostel. Com este filme, Haneke desafia todo o horror que vimos até hoje. Não é a violência física que nos faz horrorizar, mas sim o terror psicológico, as consequências que essa violência tem sobre as personagens. Aliás, a violência física é imperceptível. “O que não se vê é o que provoca mais medo. A imaginação humana é o que há de mais aterrador”, já dizia Spielberg.
Funny Games (2008)
É de facto um filme simples, na medida em que o realizador não se preocupa em provocar o medo no espectador, pelo menos não directamente. Aliás, fá-lo sentir como se fizesse parte da experiência, não só pelas escolhas de câmara “anormais” mas também pelo facto da personagem de Michael Pitt por vezes se dirigir ao público, quer com o olhar, quer com uma pergunta directa.
Desprovido também de qualquer banda sonora, possibilita ainda uma maior aproximação à realidade vivida pelas personagens. O que as personagens ouvem é aquilo que nós ouvimos, todos os sons e barulhos, assim como a ausência destes. Veja-se o caso em que a personagem de Devon Gearhart consegue fugir e tem no seu encalço um dos “jogadores”. À medida que tenta ouvir o seu perseguidor, também nós ficamos embrenhados na procura de algo que o denuncie a cada segundo que passa.
“Either with a knife, either with a gun, losing your life can be fun”. De facto, nunca um filme de terror – se é que lhe podemos chamar isso – se mostrou divertido como este se mostra. Como Peter (Corbet) dizia, “You shouldn’t forget the importance of entertainment”, e de facto, não foi esquecida. A atitude que ambos têm sobre toda aquela situação é, no mínimo, de conforto. Afinal, para eles tudo aquilo não passa de um jogo e divertem-se a provocar o medo e o horror sobre as pessoas, com a maior educação possível. É talvez esse conforto que torna o filme mais aterrorizador.
Já as interpretações são fortíssimas, desde Tim Roth e Naomi Watts, que nos asseguram drama e horror, a Michael Pitt e Brady Corbet, que nos asseguram divertimento e terror ao mesmo tempo. Todos nos conseguem convencer de cada agonia, de cada sobressalto, de cada surpresa.
Então, porque quebra Haneke as regras? Porque não segue as directrizes seguidas por todos os outros criadores de horror. Segue as suas próprias regras. Não se deixa influenciar pelo que a multidão gosta mas precisamente pelo que a multidão sempre temerá: aquilo que não conhece.
Vamos então fazer uma aposta. Vocês apostam que não vão gostar do filme e eu aposto que vocês vão adorar. O jogo é simples. Escolher um dia. Escolher uma hora. Escolher uma vítima. Apreciar o filme.
“Shall we begin?”
Classificação:
Escrito por Eduardo Antunes
Editado por Carlos Couceiro