
A PhD in Horribleness
É com “Dr. Horrible’s Sing-Along Blog” que Ricardo Leal se estreia no Hotvnews, vindo directamente do mais recente Casting Hotvnews (CC).
Tenho de confessar que, apesar de ser um grande fã de Mr. Whedon, não fiquei muito entusiasmado com o anúncio de Dr. Horrible. Por várias razões: por exemplo, a esmagadora maioria dos mini-episódios que andam na internet são, na melhor das hipóteses, maus; havia poucas informações sobre o dito; o trailer não foi nada de especial e a minha atenção estava totalmente focada em Dollhouse. Fiquei agradavelmente surpreendido. Adorei tudo, desde a produção que, apesar de caseira, foi excelente, as músicas de tocar o coração, as piadas de morrer a rir e as personagens fora de série. Aos cinco minutos do primeiro acto já estava apaixonado. Tem aquele encanto. Um mimo.

Neil Patrick Harris é DR. HORRIBLE
Quando soube que Dr. Horrible ia ser uma produção low-cost, nunca pensei que o resultado final fosse este. É claro que é modesto, mas tem uma aparência tão moderna, tão perfeita, que impressiona. Nota-se uma obsessiva atenção ao detalhe em cada cenário, em cada efeito especial. E também nunca pensei que uma produção destas tivesse os efeitos especiais que teve. Apesar de modestos, foram excelentemente bem concebidos e enquadravam-se sempre no espírito da obra.

Felicia Day é PENNY
A música segue o estilo a que Joss nos habituou no seu musical do Buffyverse, Once More With Feeling. Tem músicas bem ritmadas, baladas com a voz mais querida de Felicia Day (e quase que não dávamos por ela em Buffy!), voice-overs cheios de estilo e, por estranho que pareça, uma espécie de hip-hop lento ou R&B rápido na canção Brand New Day. Apesar de não gostar de hip-hop tenho de admitir que gostei. Estava muito bem feito, entrava no contexto como manteiga em pão quente e não era exagerado.

Nathan Fillion é CAPTAIN HAMMER
A estrutura e sobretudo o tema desta mini-série, tendo em conta o modo de distribuição, a internet, foi muito bem pensado. É claro que os utilizadores da Internet já não vivem na cave / garagem dos pais e não são nerds que passam os dias de sol no quarto pregados aos computadores, mas remontar às origens da internet e libertar essa nostalgia nerd foi um golpe de mestre. E ficou tudo em consonância. Um exemplo disso é o amor de Horrible por Penny, a típica rapariga do lado (the girl next door). Se repararem, eu tenho algumas dificuldades em classificar Dr. Horrible’s Sing-Along Blog: obra, musical, mini-série, web-episodes, etc… Isto acontece porque é realmente inovador. Uma mini-série mais curta distribuída na Internet, mas maior que webisódios, que posteriormente sairá em DVD. Bem diferente do que estamos habituados.

Gajos do Bad Horse
A interpretação dá vida a este musical com actores que, embora não sejam famosos, são conhecidos, uns mais que outros, é claro. Neil Patrick Harris interpreta a personagem principal, Dr. Horrible, e cai-lhe que nem uma luva. Este actor é actualmente recorrente em How I Met Your Mother (onde está também a Alyson Hannigan, que já trabalhou com Joss em Buffy) e é performer na Broadway. Para quem está familiarizado com o Whedonverse, Nathan Fillion, o nemesis do Doutor, o Captain Hammer, não lhe é estranho. Interpretou o papel do veterano Capitão Malcom Reynols em Firefly e Serenity e o preverso Caleb em Buffy. Recentemente teve um papel recorrente em Desperate Housewives – Donas de Casa Desesperadas, nem por sombras tão atractivo como os anteriores, mas provavelmente mais conhecido. A menos rodada (sem segundos sentidos) nestas andanças, mas nem por isso menos competente, é Felicia Day, que fez o papel de uma das potenciais caçadoras em Buffy, e a sua voz vende boa vontade no papel de Penny. Agora parece bem mais adulta. Destaque também para Moist (Simon Helberg; A teoria do Big Bang), que só de olhar para ele qualquer um se desmancha a rir, e Bad Horse, a segunda coisa mais surpreendente e, sem dúvida, a mais agradável.

Moist
Já referi que Dr. Horrible é engraçado, mas é muito mais que isso. O diálogo é inacreditável, brilhantemente inteligente, tem cada saída que até nos põe a pensar se quem fez isto teria algum poder especial, do tipo inacessível a todas as outras comédias. Faz-me lembrar aqueles episódios da Buffy em que o estômago nos doía de tanto rir. Aqui, tudo foi pensado e feito de acordo com isso. Nenhuma das expressões ou linhas foi deixada ao acaso. Quanto não há cantoria, há piadas, quando não há piadas, há sonhos de bradar aos céus e quando não há isso, há um acontecimento que deita todo o mundo abaixo e nos deixa a pensar se tudo não passou de um sonho ou se o criador disto gosta de ser cruel.

O enredo anda a volta de três coisas, a jornada de Dr. Horrible para dominar o mundo, a vontade de Penny para dar uma casa aos sem-abrigo e a fachada do Captain Hammer. No primeiro acto presenciamos um roubo do Dr. Horrible. Esse roubo é suposto arranjar uma coisa, que fará com que ele possa fazer um crime. Esse crime poderá valer-lhe a entrada na Evil League Of Evil (A Maldosa Liga do Mal). Ao mesmo tempo, um dos seus objectivos é falar com a rapariga que lhe está a mexer com a cabeça, Penny. As duas coisas interligam-se e, com uma interferência do Captain Hammer as coisas mudam para pior, apesar do plano ter sido bem sucedido. O segundo acto fala quase exclusivamente do triângulo amoroso entre Horrible, Penny e Hammer culminado na promessa de vingança e assassínio de Hammer por parte de Horrible.

SPOILERS
OS ACONTECIMENTOS REVELADOS NOS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM E VÃO PREJUDICAR GRAVEMENTE O VISIONAMENTO DE DR. HORRIBLE’S SING-ALONG BLOG
SE AINDA NÃO VIU ACONSELHO FORTEMENTE A PARAR E IR VER E DEPOIS VOLTAR E IR VER OUTRA VEZ

O primeiro acto é a apresentação dos personagens, deste mundo diferente e o início da história. Dos três actos, o segundo é o meu preferido. Tem humor e drama na quantidade certa. Relaciona as personagens a um nível muito profundo. Acho que representa o espírito desta mini-série como um todo. E se alguém tinha dúvidas de que Dr. Horrible é uma criação de Joss Whedon, os inesperados acontecimentos do terceiro acto vão certamente dissipá-las. Para esse senhor o luto é tão poderoso como o amor. Já o provou diversas vezes e fê-lo mais uma vez aqui. Para uns a sua maior qualidade, para outros o seu maior defeito. Eu apenas fico pasmado e profundamente triste. Mas não pode ser mau ficarmos a pensar numa coisa e debater sobre ela durante muito tempo. Só pode significar que essa ‘coisa’ foi marcante. Gostava também que o terceiro acto tivesse outra cena em que a Penny e o Doutor cantassem juntos, foram estas cenas que proporcionaram alguns dos melhores momentos, embora seja difícil fazê-lo pois todos eles são muito, muito bons.

Este universo foi criado de maneira a ter imensos simbolismos. A relação entre Hammer e Penny é uma relação de parasitismo. O capitão só anda com ela porque ela é o amor do Dr. Horrible. Faz-nos pensar que, apesar dele conseguir enganar todos em relação a si, não deveria enganar Penny, pois ela parece daquelas raparigas inteligentes. Mas não. Ela tem daquelas personalidades em que só se vê o bem nas pessoas. A grande revelação do terceiro acto é mesmo a morte de Penny e as suas últimas palavras são que o Captain Hammer os vai salvar a todos. Dr. Horrible apenas quer conquistar o mundo para o mudar, pois acha que este se tornou corrupto. É claro que, em vez de o mudar por meios mais convencionais e correctos, segue o pior caminho. Mas não é genuinamente mau. Aliás, ele não consegue matar o Captain Hammer, o irritante Captain Hammer, todo ele é transparente. Covarde (embora seja preciso ter coragem para comparar os sem-abrigo com a Lassy…), mania das grandezas e desprezo pelos inferiores. No entanto, é esperto, ou teve sorte o suficiente, mais a segunda, para ser idolatrizado por toda a população. Foi ele que matou Penny, embora involuntariamente. Como já mencionei, acho que foi uma atitude extremamente cruel por parte de Joss matar Penny. Ela é a única personagem verdadeiramente pura e honesta, a única que queria fazer o bem pelos meios certos só por fazer, só para ajudar. Sabemos no que acredita o Senhor Whedon, mas já ficamos fartos da sua tara (Tara, tara… vocês perceberam!) em matar todos os seus personagens mais queridos. Jenny, Tara, Wash, Fred, Cordelia e por aí adiante, pois a lista continua. Isto não é maneira de acabar uma comédia! É triste, cruel (outra vez) e muito, muito frustrante. Outra das discussões mais importantes é o amor dos outros personagens por Penny. É óbvio que o Captain Hammer não a amava, mas e o Dr. Horrible? Muitos dizem que ela foi mal tratada pela história, tal e qual a cena em que é empurrada para o lixo, e que era apenas um objecto de disputa para o vilão e o herói. Não concordo. Dr. Horrible já gostava dela antes do Captain Hammer e ficou genuinamente triste aquando a sua morte. Apesar de conseguir os seus objectivos, não ficou contente. Um exemplo daquele ditado. Ele ficou com o que queria, mas será que ficou com o que precisava? Se quiserem chorar… vejam:

Mesmo tendo em conta o fim, o mérito não esmorece. Até porque apesar de ficarmos despedaçados, ficamos a pensar nisso durante muito tempo. Toda a série / filme que em 45 minutos ganha um nível de profundidade deste género e ainda proporciona imensos temas para discutir, recebe um 20 pelos meus padrões.

Não consigo de deixar de pensar em Dr. Horrible’s Sing-A-Long Blog como uma grande alegoria. O Captain Hammer representa a hipocrisia crescente no mundo e a necessidade popular de fazer heróis onde eles não existem. A Penny representa a pureza e o amor, representa os que querem fazer o bem e acabam magoados por isso. Dr. Horrible quer mudar o mundo da maneira errada. Representa todos aqueles que acham que o mundo está mal, mas que ao tentarem mudá-lo, fazem pior.

Para concluir, e apesar de tudo, recomendo vivamente esta espécie de musical-série-webisódios a todos os que tenham um coração. Literalmente. É lindo, é espantoso, é comédia, é drama, é uma paixão impossível de resistir. Experimentem no iTunes. Se forem fãs de cinema, séries, musicais ou até teatro e virem isto uma vez garanto-vos que o vão ver muitas mais. Eu, por exemplo, estou a roer as unhas pelo DVD.
I hope to set an example, you know, for children and stuff.

Texto de Ricardo Leal
Editado por Ricardo Leal e Carlos Couceiro
Originalmente publicado no Criticando

Vencedores já anunciados!


Domingo, 27 Julho 2008 às 10:50
Muito bom post, Ricardo:) Bem vindo!!!
Claro que sou um seguidor de Joss e nao digo q esta experiencia seja o melhor que ele ja fez mas para o objectivo q queria atingir fe-lo muito bem. Foi um sucesso. É uma produção simples, mas arrojada, com tudo no sitio e alem do mais com actores que passei a adorar desde o universo Buffy.
Felicia Day, não sei porque mas sempre achei que das potenciais em Buffy, apesar de se fazer mais fraca, achava-a das melhores actrizes que lá estavam….
O Neil é fantastico…basta ver HIMYM
O Nathan é aquele actor mto mto fixe e simpatico que tb ja adoramos dos trabalhos de Joss. E acho que ele em Desperate mostrou uma outra faceta. Uma boa faceta porque acho que esteve muito bem, Oxalá entre na série 5!
Bom, para finalizar resta esperar pelo DVD que sairá em breve. Foi uma experiencia engraçada esta! E não demora muito esta outros produtores a seguir as pisadas do Joss….
Agora go DOLLHOUSE, go DOLLHOUSE:)
Quarta-feira, 30 Julho 2008 às 17:15
Obrigado.