
À primeira vista mais uma série de advogados, rapidamente nos apercebemos que Damages iria ser completamente diferente das séries deste género. Aqui não há casos da semana nem discursos épicos à lá Alan Shore. Até cenas passadas dentro de tribunais são difíceis de encontrar. Aprofundando apenas um caso por temporada, Damages mistura drama e muita intriga, numa história onde nada é aquilo que parece e onde tudo e todos escondem um segredo: “Trust no one”.
A história gira em torno do caso contra Arthur Frobisher, a personagem que trouxe Ted Danson de volta à televisão e que provou que o Sam Malone de Cheers é tão bom a fazer drama quanto a fazer comédia. Arthur Frobisher é acusado de fraude fiscal, de ter levado todos os funcionários a comprarem algumas acções da sua empresa dias antes de uma inspecção fiscal. De um lado da barricada temos Frobisher e o seu advogado e bom amigo Ray Fiske (a revelação Zeljko Ivanek). Do outro temos todos os funcionários representados pela impiedosa Patty Hewes (uma assustadora Glenn Close), uma mulher sem escrúpulos e perigosa que fará de tudo para destruir os seus oponentes: neste caso, Arthur Frobisher. No meio deste campo de batalha iremos conhecer a sonhadora Ellen Parsons (Rose Byrne, outra enorme revelação), uma jovem advogada com casamento marcado com o médico David Connor (Noah Bean) e que irá ser uma das associadas de Patty nesta sua cruzada. Uma descrição, talvez, um pouco banal, mas que nos prende a atenção logo no primeiro episódio, a partir da primeira cena.

O episódio piloto é, sem margem para dúvidas, uma das melhores horas de ficção do ano e um dos melhores inícios de sempre para uma série. Toda a tensão e mistério que tão bem caracterizam a série são marcas presentes desde o primeiro instante. Na primeira cena, Ellen Parsons sai de um elevador completamente perturbada, coberta de sangue e vestindo apenas um casaco, vagueando pelas ruas de Nova Iorque. Rapidamente descobrimos que Ellen é a principal suspeita da morte de David, o seu noivo. A acção retrocede seis meses e percebemos como é que Ellen chegou até junto de Patty Hewes e quais as motivações desta última para a ter contratado, dando conta de uma espécie de sede de vingança para com Arthur Frobisher. Com um argumento ágil e uma montagem perfeita, a série convence logo no primeiro episódio, deixando no ar um certo optimismo: esta vai ser mesmo a melhor série do ano, como muita gente andou por aí a aclamar. Mas, e à medida que o tempo vai passando, vamo-nos apercebendo de que as coisas não são bem assim…
Após um estonteante primeiro episódio, Damages foi perdendo o ritmo, adoptando uma postura mais contida e pausada. O frenesim da estreia deu lugar a um drama de personagens que em nada correspondia à série com a qual nos havíamos comprometido. Ao quinto episódio, “A Regular Earl Anthony” (pior episódio da série e altamente evitável), o desespero e o desânimo começam a falar mais alto e o título de melhor série do ano parece começar a fugir por entre os dedos de Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman. Contudo, no episódio seguinte, “She Spat at Me”, os autores parecem ter ouvido a opinião dos fãs, mudando o rumo do programa.
O drama de personagens continua presente, mas a ele junta-se também o ritmo imparável do episódio
piloto. A partir daqui, as duas vertentes da série fundem-se e confundem-se, em que uma parece não existir sem a outra, recuperando os espectadores mais desacreditados que haviam perdido alguns episódios atrás. A história adensa-se, as personagens abrem os seus corações para o espectador e a conspiração começa a desvendar-se perante os nossos olhos. De episódio para episódio, a série melhora a olhos vistos, deixando-nos em pulgas sobre o que irá acontecer a seguir e deixando-nos a torcer pelos nossos personagens favoritos, mesmo não existindo propriamente bons e maus da fita. Afinal, este elenco de personagens é um grupo de pessoas completamente danificadas, com sérios danos nas suas vidas (daí o título original), que os tornam em seres altamente perturbados, mas também em personagens credivelmente reais. E assim chegamos ao segundo melhor episódio da existência da série…
Com um ambiente ainda mais tenso, “I Hate These People” emana uma sensação de claustrofobia que se coaduna com os fantasmas do advogado Ray Fiske, culminando com um final surpreendentemente arrasador e inesperado. Rose Byrne é uma das grandes revelações da série: a maneira como a jovem actriz australiana deu vida ao crescimento de Ellen e à maneira como esta foi sendo corrompida até se tornar em alguém similar a Patty ou Frobisher é merecedora de todos os aplausos. Mas a verdadeira surpresa do programa, para mim, reside no actor Zeljko Ivanek, de quem infelizmente nunca tinha ouvido falar. De episódio para episódio, a própria personagem vai crescendo com a série, ganhando o nosso afecto, e se os argumentistas foram inteligentes na maneira como desenvolveram Ray, a verdade é que parte do sucesso do advogado de Arthur Frobisher reside na interpretação de Ivanek. Peço desculpa Glenn Close e Ted Danson, mas se existe alguém na vossa série que merece ganhar um Emmy esse alguém é Zeljko Ivanek. É provável que nem chegue a ser nomeado, mas ninguém duvida que seria um sério candidato…
É, justamente, o desaparecimento de Ray Fiske do nosso convívio que dá o mote para a recta final da série, justificando muito daquilo que vimos para trás em flashbacks, outro factor que torna a série tão interessante. A linha temporal dos acontecimentos é usada e abusada na perfeição, provocando no espectador um misto de estranheza e curiosidade, tentando adivinhar o que irá acontecer a seguir que clarifique as atitudes das personagens. E se a montagem dos episódios é fabulosa, a fotografia ainda é mais surpreendente, num jogo entre claros e escuros, onde o passado, presente e futuro se misturam. No penúltimo episódio, “There’s No ‘We’ Anymore”, o momento em que o futuro se torna no nosso presente é uma das cenas mais bem conseguidas de toda a série.

E assim chegamos ao final da temporada, com, praticamente, todos os mistérios a descoberto. “There’s
No ‘We’ Anymore” esclarece todas as dúvidas que poderíamos ter, o que faz de “Because I Know Patty” um final um tanto decepcionante, não acrescentando muito àquilo que já sabíamos e servindo mais para abrir portas para uma segunda temporada. Estará Patty a par do facto de que está a ser investigada pelo FBI? E saberá ela quais as verdadeiras intenções de Ellen? Conseguirá Ellen vingar-se de Patty e provar a culpabilidade de Frobisher no assassinato de David? Continuará Tom (Tate Donovan) a ser um pau-mandado como até agora? Alguém mais reparou na maneira como ele tem tratado Ellen nos últimos episódios? Poderá existir qualquer coisa entre os dois no futuro? E o que aconteceu a Frobisher? Terá morrido ou conseguiu-se salvar? A maneira como o vemos pela última vez, deixa-me a acreditar na primeira opção, aliando ao facto de ainda não ter sido garantida a presença de Ted Danson na segunda série… Espero, ao menos, que a ligação entre Patty e Frobisher seja clarificada. E quero também ver até que ponto é que as acções futuras de Patty serão condicionadas pelas recordações da sua falecida filha, pelo suicídio de Ray Fiske, pela traição de Ellen e pelos actos de Michael (participação de Zachary Booth), seu filho: por que razão é que Michael voltou ao apartamento na noite do ataque a Ellen?

Damages é a melhor série do ano? Não. Nem sequer é a melhor nova série estreante da temporada. Mas é uma das melhores séries da actualidade e isso é suficiente para fazer dela uma daquelas histórias a não perder. E se não viu na TVI, aproveite para ver no AXN, depois do Verão. E se quiser ler mais opiniões sobre a série, aconselho o tópico oficial da mesma no fórum Cantinho da TV. Infelizmente, Damages despede-se aqui dos leitores do Hotvnews, devido à relativamente fraca adesão a estes textos. Contudo, agradeço a quem se manteve desse lado ao longo de todos estes meses. Até à próxima!

Vencedores já anunciados!


Domingo, 29 Junho 2008 às 19:23
Concordo com os elogios à série. Apenas uma questão: qual é a melhor série estreante?
Domingo, 29 Junho 2008 às 19:47
A critica esta muito bem escrita, concordo com maior parte, mas ha uma coisa que escreveste que nao esta de toco correcta.
“Ao quinto episódio, “A Regular Earl Anthony” (pior episódio da série e altamente evitável), o desespero e o desânimo começam a falar mais alto e o título de melhor série do ano parece começar a fugir por entre os dedos de Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman. Contudo, no episódio seguinte, “She Spat at Me”, os autores parecem ter ouvido a opinião dos fãs, mudando o rumo do programa.”
Em primeiro lugar, acho esta frase um bocado exagerada, nao ha episodios evitaveis, principalmente numa serie que tem este tipo de continuidade, mas nem e por isso que escrevo. Quando dizes que os autores ouvem a opiniao dos fas, nao funciona bem assim. Estas series, de canais como o FX, sao todas filmadas antes sequer de ir para o ar, e mesmo que assim nao fosse, nunca poderia haver uma alteracao tao repentina como a que descreves. Os fas nao tiveram nada a ver com isso, as vezes acontece momentos de maior ou menor inspiracao, partindo do principio que fosse tudo escrito pela mesma pessoa, o que maior parte das vezes nao acontece.
De resto a critica esta optima, e acerta nos pontos essencias que sao as excelentes actuacoes por parte do elenco. E uma serie altamente recomendavel, nao sei como vai ser na segunda temporada, secalhar teria mais piada se fosse uma mini-serie e tivesse ficado por aqui.
Domingo, 29 Junho 2008 às 20:26
@PR:
Isso depende muito dos gostos de cada um, assim como posso aceitar quem considere Damages a melhor série estreante. Mas, para mim, gostei mais, no geral, de Pushing Daisies e de In Treatment, especialmente desta última. Damages viria logo a seguir a estas. Mas isso sou eu…
@Eduardo:
Concordo contigo. Realmente, a parte do “evitável” foi um bocado exagerada. O episódio até era necessário para mostrar melhor como funciona a relação do Tom com a Patty, mas acho que não ficou bem conseguido… Se calhar por se centrar muito no Tom (de quem eu não gosto lá muito), a verdade é que para mim foi o episódio que mais me custou a ver…Se tivessem explorado a história de outra maneira, talvez eu não pensasse assim…
Quanto à parte dos autores ouvirem os fãs, também foi outro erro de expressão da minha parte. Eu sei que a série já estava toda planeada antes de ir para o ar, mas onde eu queria chegar era que depois daquele quinto episódio os autores parece que conseguiram encontrar por si próprios a melhor maneira de desenvolver a série, combinando os desenvolvimentos do caso e os problemas pessoais das personagens, dando a ideia de que *parece* que estavam a prever este tipo de críticas…
Enfim, my bad.
Ah, e já agora, também concordo contigo. O melhor seria ficar-se por esta temporada. Mas vejemos o que nos espera a segunda temporada.
Obrigado por comentarem.
Cumps
Domingo, 29 Junho 2008 às 22:23
Acho que está tudo dito. Excelente review.
Eu acho que a série flutua muito. E falo em termos de encadeamento dos acontecimentos. Há algumas alturas em que parece que quem editou os episódios, fê-lo de maneira disparatada. Outras vezes, a sequência dos flashbacks acaba por cortar o ritmo do episódio.
Mas é uma boa série. Sem dúvida. Mas falta-lhe um bocadinho para ser uma excelente série.
Domingo, 29 Junho 2008 às 23:49
Melhor série estreante alêm desta é Pushing Daises sem dúvida a pior estreante tendo sido cancelda talvez Bionic Woman ou Mafia de saltos altos usando a tradução tuga . Esta série Damages é muito boa embora, por vezes a mim se me torne irritante, porque parece que não desenvolve o enredo, mas não é por isso que não deixa de ser excelente. Já estou curioso para a próxima temporada pois vai ter o William Hurt o que já por si vale muito a pena.
Domingo, 29 Junho 2008 às 23:51
A adesão devia ser fraca aos post talvez por a série passar á 1 da matina na TVI e muita gente por isso não a conhecer, é pena terminarem mas pelo menos não deixem de ver a série que ela bem merece ser vista.
Segunda-feira, 30 Junho 2008 às 11:24
Pois eu acho que novos conteúdos nunca são dispensáveis. Acho triste, honestamente, que se cancele a cobertura de uma série devido à “fraca adesão aos textos”. Mas isto sou eu…
Segunda-feira, 30 Junho 2008 às 22:04
Percebo o ponto de vista, PR, mas deste lado também custa um bocado estar a “escrever para o boneco” semanalmente, sem estarmos a receber qualquer feedback pelo nosso trabalho.
Também acredito, tal como o vitoscano referiu, que a principal causa da fraca adesão foi o horário em que a série foi transmitida, já para não falar na maneira como a TVI geriu o último episídio. Mas isso não invalida que, por exemplo, mais pessoas entrem em contacto com a série no AXN e esta decisão seja reformulada.
Nada é definitivo, e como a segunda temporada ainda está muito longe (nos EUA, só em 2009, sabe-se lá quando cá em Portugal…), ainda muita coisa pode acontecer. Por agora, esta é a nossa decisão. Mas espero que aconteça algo que nos faça mudar de opinião.
Cumps
Terça-feira, 1 Julho 2008 às 11:37
Obrigado pela resposta Daniel.
Mas quando falas em feedback referes-te a que exactamente? A comentários? Ou a pageviews?
É que o facto de as pessoas não comentarem não quer dizer que não leêm. Eu por exemplo li todas as reviews. Só comentei o balanço. Nos blogs que tenho raramente as pessoas comentam mas longe de mim pensar que não lêem. Até porque as visitas provam o contrário. 0 comentários = Ninguém liga a isto parece-me algo precipitado e injusto para quem de facto lê. Embora perceba a importância do feedback num trabalho.
É só uma opinião diferente:)
Um abraço,
PR
Terça-feira, 1 Julho 2008 às 15:02
Refiro-me às duas coisas, PR. Não só aos comentários, mas também às visitas, que foram mesmo muito baixas e não corresponderam às nossas expectativas.
Mas é como disse. Para já esta é a decisão, mas nunca se sabe o dia de amanhã…
Cumps
Quarta-feira, 2 Julho 2008 às 0:44
Admito que lá para o meio da temporada pode-se acusar algum cansaço e falta, mas para mim Damages está muito perto de ser a série perfeita e considero-a sem dúvida a série do ano. (8)
Concordo na sua maior parte e felicito também a excelente escrita desta review. Grande trabalho Daniel
Ah, e eu não consigo entrar no espírito de Pushing Daisies!
Quarta-feira, 2 Julho 2008 às 4:00
[...] entre nós Sem Escrúpulos (Damages). Pode ler a review da 1ª temporada de Daniel Carronha aqui. Às 23:29, dois episódios da nova série Investigação Especial. Liderada pelo Detective Peter [...]
Sexta-feira, 12 Setembro 2008 às 21:57
Estou achando a série Damages um barato e a Genn Close trabalha muito bem.