
título original: Angel
ce: François Ozon
escrito por: Martin Crimp e François Ozon
com: Romola Garai, Sam Neill, Lucy Russell, Charlotte Rampling e Michael Fassbender
Dito de uma maneira simples, Angel é um melodrama.
Como os grandes e tenebrosos (é coisa boa, entenda-se) melodramas que nasciam e marcavam as décadas de 1940 e 1950 de Hollywood.
Como E tudo o vento levou, reposto incessantemente anos a fio.
Mas nem tudo é simples em Angel.
Afinal trata-se de François Ozon a estrear-se numa produção em língua inglesa.
Ele é, afinal, o homem que nos deu 8 Femmes ou Le Temps qui reste.
Quando começamos a encarar a sumptuosa grandeza daqueles cenários, vemos a falsidade rosada que poderia ter saído da literatura de cordel de há um século.
Por isso mesmo, não estamos preparados para que a história da jovem Angel nos emocione como emocione e nos pareça tão sincera.
Angel, a filha de merceeira que, sem nunca ler e sem nada conhecer do mundo (sonha apenas com a mansão da sua vila), está determinada a tornar o seu apelido mundialmente reconhecido, por via dos livros que escreve.

Consegui-lo-á, claro, como indispensável seria a tal história.
Mas consegui-lo é o mais simples, o que vem depois é que é mais complexo.
Ainda que a sua extraordinária auto-confiança (ou arrogância, cada qual a lerá como quiser) lhe permita movimentar-se nos meios que apenas imaginou do seu pequeno quarto.
Ainda que a sua imaginação lhe permita reinventar-se e (aparentemente) reinventar o mundo à sua volta.
Depois vem a descoberta do mundo, aquele que imaginando não experimentou do seu pequeno quarto.
O amor e as suas tormentas, claro.
Afinal Angel é a rapariga ingénua que sonha e não tardará a apaixonar-se pelo único homem que não lê os seus livros e que, portanto, não se rendeu aos seus encantos literários. Pior, um homem que é o seu contrário, que ama todas as mulheres sem se demorar nelas, que pinta a feiura de um mundo que ela teima em embelezar, que não pode viver no sonho, mas precisa de experimentar o mundo – o jogo, a guerra e o que mais vier.
Ele fugirá do mausoléu que ela lhes criou em vida, preferindo a Guerra à perfeição.
E enquanto ele está na Guerra, ela fugirá do seu mundo idílico para se tornar uma escritora pacifista e se aproximar dele.
Ele só voltará para ela porque a Guerra lhe roubou um membro e o mundo talvez já não o aceite.
E só quando ele volta e precisa de dinheiro para dívidas de jogo, quando ele parece dela, ela voltará a esse mundo.
Mas, afinal, descobriremos que nenhum poderia ser do outro, porque nenhum conhecia a verdadeira dimensão do outro.

Ozon filma toda esta desmesura dramática num cenário falso, já o tinha dito.
Só não tinha dito que é falso como os cenários pintados de uma peça de teatro, que dependem da nossa imaginação para serem reais, porque depois a justeza das interpretações vivem lá.
Ozon filma com a contenção que contrasta com os cenários, com a contenção de uma cena teatral, de facto, e assim nos faz crer que se não é, deveria ser verdadeiro tudo o que ali se passa.
Aquele pedido de casamento à chuva, que ela lhe faz a ele, parece tão falso, a chuva parece tão improvisada, e no entanto alguém deixa de crer que faria o mesmo, que simularia aquela chuva e aquele pedido se lhe fosse dada a oportunidade?
Sobretudo, alguém se deixa de comover?

E porque no final, Angel revela que não é apenas um melodrama, mas um discurso sobre a literatura e a percepção dos artistas, percebemos que Angel não é apenas um melodrama como já não se fazem e como já ninguém se dispõe a ver.
Se o fulgurante sucesso de Angel se esbate par a par com o seu coração (e o seu aspecto), enquanto o repúdio pela pintura de Esmé se anima em aclamação quando o seu corpo já está livre das maleitas terrenas, é a catarse possível para as suas vidas e para o mundo.
Era dela a beleza e dele a feiura do mundo. E a beleza parece morrer muito mais depressa. E esta possibilidade tão depressa nos causa temor como nos causa dó.
Classificação: 

Vencedores já anunciados!


Sexta-feira, 23 Maio 2008 ás 23:18
Quero ver! Gostei muito do poster e estou bastante interessado no filme… obrigado pela crítica!
Rúben
Sábado, 24 Maio 2008 ás 13:19
Também fiquei muito intrigada pelo o comment que li e gostava muito de ver o filme, muito ao estilo do filme “Mulherezinhas”, pelo menos foi a primeira abordagem que eu tive, vou aguardar para ter uma opinião mais formada .)