
Episódio: The Lost
Temporada: 10.ª Temporada
Canal: AXN
Primeira transmissão Portugal: 03 de Agosto de 2007
Primeira transmissão EUA: 02 de Outubro de 2003
“I was lost, but now I’m found”

Apesar de estarmos apenas no início da temporada, atrevo-me a dizer que “The Lost” será certamente um marco no percurso de ER, pois considero estar perante um raro e notável episódio de televisão em toda a sua plenitude artística, que consegue sobriamente, sem quaisquer artifícios, imprimir à série um cunho humanista e intervencionista, sem nunca se desviar da sua génese, ou seja, da premissa que rege o County General: ajudar os outros, seja em que circunstância for, sem olhar a ideologias, crenças, cor ou raça. Para além disso, fica bem registada a grandeza de todos os profissionais de saúde que largam todos os anos o conforto do lar e a estabilidade profissional, para se lançarem, a troco de nada, num mundo desconhecido, em prole dos outros, em prole da Vida. Carter (Noah Wyle) e Kovac (Goran Visnjic) representam o Homem que deveria subsistir em cada um de nós, a verdadeira essência do ser humano.
Tal como ficou expresso no passado episódio, Carter regressa ao Congo, com o intuito de resgatar o corpo do médico croata, dando início a uma verdadeira luta contra o tempo, pois passaram entretanto 22 dias, desde que deixara Kovac na clínica de Matenda.
A excelente qualidade cinematográfica apoia uma arrojada estrutura de acção, que balança entre o presente (a procura do corpo de Kovac) e o passado (o percurso de Kovac), um passado visto em distintos flashbacks cronológicos, que nos foram ilustrando o progressivo descontrolo da situação na clínica congolesa e a consequente fuga da mesma, bem como a progressão da malária que se abateu sobre Kovac… sempre com os destroços de uma guerra civil sangrenta como pano de fundo.
Com a ajuda de Charles (participação de Jarreth J. Merz) e da inquieta Gillian (participação de Simone-Elise Girard), a nova namorada de Kovac, Carter faz tudo o que está ao seu alcance para encontrar os restos mortais do amigo, lutando contra a burocracia de departamentos que pouco podiam fazer, dada a frágil situação política de um país destruído, amargurado e sem dono. Ao contrário do que aconteceu no último episódio da passada temporada, em “Kisangani”, Carter assume agora um discurso político bem mais aceso e revoltado, falando abertamente dos escondidos meandros desta contenda, que assiste em directo e na escassa ajuda exterior que o país consegue: “…There’s no oil here. We’re too busy eating Happy Meals.”
É já na companhia de Debbie (participação de Mary McCormack), uma colaboradora da Cruz Vermelha, que Carter reencontra a clínica de Matenda totalmente destruída e um albergue atroz de corpos moribundos, cenários cruéis e desumanos que dilataram a raiva interior de Carter. Este consegue descobrir, junto de pacientes que contactaram com Kovac, o local onde o corpo deste e do ajudante Patricke (participação de Abdul Ayoola) presumivelmente se encontravam.
Todavia, só encontrarão o corpo deste último, algo que causa no grupo elevada consternação, apaziguada apenas com a informação ainda incerta de que as tropas Mai – Mai confundiram Kovac com um padre. Percebemos então que o crucifixo que Sakina (participação de Barbara Eve Harris) ofereceu voluntariamente ao médico croata terá tido um resultado imprevisível e profundamente contraditório.
Num flashback esclarecedor, assistimos à captura de Kovac, Patrick, Sakani e da filha Chance (participação de Rishonda Napier) pelo exército Mai – Mai e à chacina que este estava a cometer com outros prisioneiros. Patrick também não é poupado à fúria dos soldados e é assassinado sem piedade à frente de Kovac.

Eis que surge o momento mais alto do episódio, que se pauta pela procura desenfreada de Carter e pela reacção inesperada de Kovac ao terror da situação, que, sem medo algum dos soldados, vislumbra no sol uma admirável luz, colocando-se em reverência para Deus numa prece sentida, que deixou todos os que o rodeavam inertes e confusos. Imediatamente Kovac vê-se rodeado por militares confessos, que viram no crucifixo a ligação do croata à igreja católica. A música “Agnes Dei “ da obra “Barber’s Adagio for Strings” engrandeceu o momento, tal é o seu já conhecido magnetismo. Tenho de dizer, que a interpretação de Goran Visnjic foi simplesmente brilhante e genial, perceptível na contenção do seu discurso, nos gestos e esgares ajustados, na postura equilibrada, no tom de voz acertado, condições que imprimiram à sua oração um ritmo angustiado e, ao mesmo tempo, arrebatador. Nem mesmo o facto do texto ser dito em croata teve alguma influência, pois a sinceridade da sua súplica suplantaram qualquer necessidade de entendimento linguístico. Podem (re)ver esse belo momento de seguida:
Carter descobre finalmente Kovac, já moribundo, conseguindo enviá-lo para o EUA, na companhia de Gillian, para que fosse tratado. Aquele decide ficar no Congo, pedindo a Kovac que entregue uma carta a Abby (Maura Tierney), onde certamente estarão explicados os sentimentos que têm povoado a cabeça do médico. Enquanto isso, ficou subentendida uma possível relação entre Carter e Debbie, algo que só comprovaremos em futuros episódios.
Este episódio encerra em si mesmo um simbolismo belíssimo, que ultrapassa as linhas da própria narrativa. Carter procurava pelo corpo de Kovac, mas no fundo esta busca serve de metáfora para a sua procura interior, para a luta que tem vindo a travar contra ele mesmo. Ele encontra Kovac e encontra-se a si mesmo. Percebe que precisa de permanecer ali, onde alguém precisa dele e onde ele sabe que pode ajudar. Inicia-se uma nova jornada na vida do Dr. John Carter.
Em contrapartida, Kovac procurava a sua destruição e encontrou Deus no seu caminho, ou seja fez as pazes com aquele que considerava não existir: “It’s hard to feel the Holy Spirit in a place like this.” Penso que ficam dissipadas as dúvidas, quanto ao comportamento instável da temporada passada, algo que esteve sempre ligado à perda dos seus filhos e, consequentemente, à sua fé cristã.
As cores deste episódio espelham fielmente a densidade da acção, nos tons escuros e acastanhados dos ambientes, somente pintados com o vermelho do sangue, que a cada momento pincelava aquela paleta sem cor. Para além disso, a dor prolongava-se nos rostos suados e sujos, nos olhos escuros e cansados… Na verdade, tudo isto se pôde entrever em Kovac, cujas mãos e unhas negras nos faziam acreditar na veracidade do momento. Outro elemento crucial prende-se com a música que manteve bem presente o ambiente da guerra civil congolesa.
Carter e Kovac viveram um momento de viragem nas suas vidas, que terá inevitavelmente repercussão nas suas posturas e nas suas vivências futuras, como homens e como profissionais. A relação dos dois alterou-se para sempre, isso parece certo, como se pode facilmente confirmar no modo como Kovac fez questão de se despedir daquele que o salvou da morte, como podem confirmar no vídeo que se segue:
Este foi, na minha opinião, um brilhante episódio de ER em todas as categorias: fotografia, edição, montagem, realização e banda sonora. Por tudo isto, não me surpreende a sua nomeação para os Emmys em 2004, na categoria de melhor direcção de drama. Acho, no entanto, que as nomeações se deveriam ter estendido à interpretação brutal de Goran Visnjic e igualmente ao episódio como um todo. Fica de qualquer modo a vontade… e o orgulho de gostar tanto desta série.
Estarei cá para a semana com mais desta equipa de urgência. Até lá!

Vencedores já anunciados!


Domingo, 19 Agosto 2007 às 2:28
Fiquei estupefacta quando vi este episódio. Foi um ds melhores episódios que vi da série (além daquele que mostra a intensidade da resistência à morte anunciada do médico Mark Greene, interpretado por Anthoy Edwards).
A frase final que Carter diz a Kovac também me tocou: i was lost, now i´m found… Quem dera a muitos poderem dizer o mesmo.
Sexta-feira, 23 Novembro 2007 às 18:40
[...] o segundo episódio desta 10ª temporada que muita aconteceu neste [...]