
Episódio: Now What?
Temporada: 10.ª Temporada
Canal: AXN
Primeira transmissão Portugal: 27 de Julho de 2007
Primeira transmissão EUA: 25 de Setembro de 2003

ER inicia uma nova temporada, a décima, para gáudio dos nossos espectadores e de inúmeros fiéis seguidores de uma das séries mais aclamadas de sempre. Portugal não teve a normal pausa entre épocas, que neste caso se revelou algo simplesmente perfeito, uma vez que a transmissão da série nos EUA leva um avanço de três temporadas, em relação ao nosso país. De qualquer modo, é igualmente verdade que a referida e usual interrupção alimenta a ânsia do público e permite a continuação da mística à volta da série. Não foi o caso, por isso abramos as hostes à “season premiere” da 10.ª temporada, com o episódio “Now What?” Fique comigo em mais uma ronda pela sala de urgência do County General!
É importante recordar as imagens finais de “Kisangani”, o último episódio da passada temporada, para que se perceba que a primeira cena de hoje é o seu prolongamento. Na verdade, tudo recomeça no quarto de Abby (Maura Tierney), igualmente ao som de uma música congolesa, algo que relembra nitidamente de onde regressa Carter (Noah Wyle). O médico deixara o Congo, um país profundamente marcado pela violência, pela dor, pelo sofrimento, pela escassez de meios básicos de subsistência e procura o tão desejado conforto na casa da enfermeira.

Ironicamente, será recebido com uma frieza impensável, envolta num discurso curto e hostil, que evidenciava claramente a angústia de quem ficou sozinha, sem justificações. “Can i have my key back, please?” foi a frase com que Abby encerrou todas as expectativas de Carter e também dos espectadores, sobretudo daqueles que ainda acreditavam numa reconciliação do casal. Contudo, devo dizer que, apesar de entender a dor de Abby, achei o seu comportamento algo excessivo, principalmente quando esta deixa pendurado alguns dos pertences do namorado no cacifo, num acto infeliz. Na minha opinião, Abby não conseguiu entender que o namorado voltou por ela e que a sua fuga para o Congo não se fez para se separar dela, mas para este marcar a diferença e para se encontrar com ele próprio, longe de todas as responsabilidades (escapar aos negócios da família é um evidente exemplo disso mesmo). O vídeo desse momento ilustra bem a dor de Abby e o desapontamento de Carter:
A enfermeira continua a achar que tudo gira à sua volta, revelando na sua atitude algum egoísmo, do qual Carter já parece estar cansado. Este desentendimento vem reforçar a ruptura já manifesta na anterior temporada, algo que se deve não à falta de amor entre os dois, mas à falta de comunicação, à dificuldade em se adaptar um ao outro e à tristeza demasiado tempo reprimida. A discussão instala-se inevitavelmente, quando se reencontram no hospital:
Para além de uma vida pessoal confusa, Carter depara-se com um serviço de urgência caoticamente alterado, onde se vislumbra uma imensa confusão de barulhos, alheios ao normal bulício do County General. No comando das obras encontra-se uma furiosa e estridente Weaver (Laura Innes), que lutava a todo o custo contra a inércia dos operários de construção civil. O hospital renova-se exteriormente, num súbito “face lifting”, quase a anunciar as grandes mudanças que parecem estar a acontecer, que passam não só pelo final de histórias antigas – como parece ser o caso da de Carter e Abby – como também pelo arranque de novas narrativas e de novos personagens. John Wells, um dos argumentistas do episódio, criou belas metáforas visuais para o fazer.
Podemos incluir nestes últimos pressupostos a apresentação de Dr.ª Neela Rasgrotra (participação de Parminder Nagra), que surge como uma lufada de ar fresco em ER. A doçura da sua voz, aliada a um requintado timbre britânico, revela uma calma já há muito necessária nesta equipa.
Tal como Carter, Neela conhece da pior forma o seu recente local de trabalho, um cenário digno de sobressalto para qualquer pessoa. De qualquer modo, consegue facilmente interagir com Gallant (Sharif Atkins) e Pratt (Mehki Phifer), que lhe dão a atenção necessária para o primeiro dia de trabalho. Devo confessar, como aparte, que foi bom observar o crescimento profissional de Gallant, que agora, como médico assistente, demonstra mais solidez e destreza no seu desempenho e isso ficou patente na forma como assumiu o erro cometido por Neela.
Por seu lado, Pratt evidencia também o seu lado pedagógico junto de Neela, uma alteração à sua forma inflexível de ser, algo que deixa Chen (Ming–Na) irritada, pois sente que está a ser desprezada pelo seu “namorado”. Esta tudo irá fazer, para demonstrar a Neela em que terreno esta está a pisar.
Terá sido um dia deveras intenso para a jovem Neela, que, para além de ter de lidar com a vida e a morte, factores inerentes ao seu trabalho, vê-se como porta-voz da mais dura das notícias: a morte de Kovac (Goran Visjnic) em Matenda, o mesmo lugar onde Carter o deixara dias antes e lhe pedira, em tom de brincadeira, para não se deixar matar.
O abalo foi sentido uniformemente por todos os elementos de equipa, com excepção de Gallant (serão ainda reminiscências do que se passou com Harkins [participação de Leslie Bibb], em “Hindsight”?), mas afectou Carter, que foi impelido a regressar ao Congo, em busca do corpo daquele que se tornara inesperadamente seu cúmplice e amigo. Esta notícia serviu também para mostrar como o médico croata pouco se dera a conhecer, durante os quatro anos em que trabalhara em Chicago. O mais gritante prende-se com o facto de Abby não saber que familiar de Kovac poderia contactar, nem mesmo o nome do pai deste. Na verdade, no final do episódio, não sei se ela estaria mais abalada com a morte do ex-namorado, ou com o súbito regresso de Carter a África, pois acho que finalmente percebeu que o terá perdido e de que nada valeram as suas acções intempestivas.
Em jeito de conclusão, penso que estivemos perante um bom episódio de ER, de onde saliento como principais pontos positivos a atitude de Carter, face à tragédia de Kovac e, consequentemente, à relação com Abby; o aparecimento da bela Neela, que parece ter tudo para alvoraçar os corações do County General;
a postura firme e segura de Gallant e, por último, a presença de Romano (Paul McCrane), que apesar de ter perdido um braço, continua a mostrar o seu lado mais agressivo e austero – o eterno “Rocket”. Os aspectos menos bons aparecem em menor número, mas são, porém, de elevada importância. Assim sendo, considero um pouco desnecessário o recurso a uma história isolada – o acidente de viação de Denise (participação de Emily Cline)– para justificar o atraso de Pratt ao serviço e a proeza conquistada por Neela, ao descobrir a doença da condutora do veículo, especialmente por essa não ser a premissa da série, já que o papel principal pertence ao serviço de urgência e à sua equipa. Parecia quase o início de um episódio de House, sendo que esta série nem sequer figurava no role de séries na altura. Por último, tenho de falar de algo já recorrente em ER, que se trata da ausência de protagonismo de Corday (Alex Kingston) e de Susan (Sherry Stringfield), que neste episódio apenas revelou que continua uma relação com Chuck (participação de Donal Logue), de quem se tinha divorciado em episódios idos. Esperemos que esta temporada não prolongue esta questão, que, na minha opinião, desnivela intensamente a série.
Estarei cá para a semana com mais desta equipa de urgência. Até lá!

Vencedores já anunciados!


Sexta-feira, 17 Agosto 2007 às 20:41
[...] como ficou expresso no passado episódio, Carter regressa ao Congo, com o intuito de resgatar o corpo do médico croata, dando início a uma [...]